Da Agência O Globo

Em julho, foram realizados 27 acordos coletivos de redução salarial, o dobro do mês anteriorFoto: Mayra Cavalcanti/NE10
Como consequência da piora do cenário macroeconômico, com inflação alta e custos empresariais elevados, os salários encolhem. Em julho, foram realizados 27 acordos coletivos de redução salarial, o dobro do mês anterior. Em 2015, o número chega a 65. Segundo o boletim Salariômetro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a negociação centralizada (convenções coletivas aplicáveis a um ramo de atividade) registrou aumentos salariais médios de 4,4%, mas não acompanhou a inflação acumulada nos últimos 12 meses de 9,3%, medida pelo INPC, o que representa queda real negativo de 4,9%.
"O trabalhador recebe um valor abaixo da desvalorização do salário dele. Ele não consegue repor o poder de compra de um ano atrás. Isso se deve à recessão. as pessoas não compram, as empresas vendem menos e tendem a demitir. Com isso, o desemprego cresce e o poder de barganha diminui", analisa Hélio Zylberstajn, coordenador da pesquisa.
Com base em valores obtidos com o Ministério do Trabalho, o relatório mostra ainda que o piso salarial médio negociado no mês passado foi de R$ 1.033, 31% a mais que o salário mínimo de R$ 788, quase R$ 250 acima. O valor avançou frente a junho de 2015, quando o piso foi negociado em R$ 998.
De acordo com os dados da folha de pagamento dos setor celetista (que segue as regras da CLT), a massa salarial apresentou queda pelo terceiro mês consecutivo, somando R$ 93,55 bilhões em valor dessazonalizado. Em 12 meses encerrados em maio, a folha salarial registrou redução de 1,9% em maio e o relatório indica que a tendência de queda real continuou em julho.
"A inflação está muito alta. Hoje a empresa não consegue dar um aumento de salário de 9%, então, ela procura dar menos do que a inflação, o que reflete nesses números", analisa Zylberstajn.
Os setores de administração pública e limpeza urbana, asseio e conservação apresentaram os maiores aumentos reais na comparação de 12 meses, com 2,88% e 2,27% respectivamente, seguidos dos salários dos trabalhadores de estacionamentos e garagens (1,97%), bancos e serviços financeiros (1,77%) e condomínios e edifícios (1,64%).
Em contrapartida, o salário de funcionários de empresas jornalísticas apresentou o menor aumento real positivo, com 0,09%. Já a remuneração de trabalhadores da indústria cinematográfica e do setor de artefatos de borracha sofreu queda real de 0,01% e 0,02%. A maior delas foi registrada no setor de agronegócio de cana, com 0,36%.
Na comparação regional, o Ceará registrou maior aumento real dos salários nos últimos 12 meses, com taxa de 1,25%. Em seguida, o relatório lista o aumento real nos estados de Alagoas e São Paulo, a 1,22% e 1,15%, na mesma ordem. Paraná e Sergipe apresentaram índice de 1,13% igualmente. Amapá e Acre registaram queda real de 0,20% e 0,18%, respectivamente.
O maior piso salarial negociado nos últimos 12 meses foi para funcionários de bancos e do setor financeiro, a R$ 1.295, seguido da indústria cinematográfica (R$ 1.190) e do setor de energia elétrica (R$ 1.160). As categorias estacionamento/garagens e vestuário registraram os menores pisos, com R$ 863 e R$ 875, respectivamente.
Entre as unidades federativas, São Paulo e Paraná apresentaram o maior piso de R$ 1.077, seguidos de Santa Catarina, Distrito Federal e Goiás, com R$ 1.051, R$ 1.026 e R$ 1.021. Os menores foram registrados no Rio Grande do Norte (R$ 870), Bahia (R$ 872), Acre (R$ 881), Amapá (R$ 890) e Amazonas (R$ 901).
O relatório também projeta a taxa de inflação até janeiro de 2017, tanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) quanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com base nos valores já registrados e nas previsões de analistas do mercado financeiro na pesquisa semanal Focus, do Banco Central. Os dois índices devem se situar na faixa de 9% a 10% até janeiro de 2016, quando começam a decrescer até atingirem a faixa de 5% a 6% a partir de julho de 2016.
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