
A formação, os planos de carreira e as condições de trabalho ainda são desafios para as políticas educacionais no Brasil
É unânime o reconhecimento da importância dos professores para uma educação de qualidade e, consequentemente, uma sociedade mais justa e uma melhor qualidade de vida. Neste 15 de outubro chovem nas redes sociais homenagens aos docentes. Essa admiração, porém, segue na contramão do desejo de se tornar um professor ou professora.

De acordo com dados do Inep e do MEC, houve uma expansão de 65% nos cursos de licenciatura entre 2001 e 2006. No entanto, as matrículas nesses cursos aumentaram em ritmo bem mais lento, 39%. De acordo com a pedagoga e doutora em psicologia Bernardete Gatti, a formação inicial e continuada, os planos de carreira, as condições de trabalho e a valorização desses profissionais ainda são desafios para as políticas educacionais no Brasil. No ano passado, Pedagogia foi um dos cursos mais procurados pelo SiSU.
“As condições de trabalho, a carreira e os salários que recebem nas escolas de educação básica não são atraentes nem recompensadores, e a sua formação está longe de atender às suas necessidades de atuação”, esclarece a pesquisadora que coordenou o estudo Professores do Brasil: impasses e desafios*, lançado em 2011 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Prestes a fazer Enem, a jovem Ana Carolina Magalhães, de 17 anos, exemplifica o que Bernardete Gatti pesquisou. “A carga horária de trabalho é grande e o fator financeiro não recompensa, além disso, o professor não é muito valorizado como deveria”, disse a fera de medicina do Colégio GGE. “Eu acredito que o professor deveria ganhar como um médico, pois qualquer profissional precisa de um professor para ensiná-lo”. Assim como Ana Carolina, nenhum de seus colegas de turma pretende fazer algum curso de licenciatura ou pedagogia.
Para a coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Fátima Brandão Amorim, o curso é, historicamente, mais procurado por alunos de escola pública porque o graduando pode obter um retorno financeiro mais rápido. “Um pedagogo pode fazer concurso para ensinar em escola pública, mas também existem escolas privadas de periferia que são muito atrativas”, explica.
O curso de Pedagogia na Rural completou 10 anos em 2015 e, embora ainda seja um curso pouco conhecido pela maioria dos feras, recebeu nota 4 (numa escala cuja nota máxima é 5) no último Enade, exame que avalia o rendimento dos alunos no ensino superior.
A professora Bernardete Gatti complementa o raciocínio da coordenadora. “A maioria das pessoas que procura a Pedagogia provém de famílias de baixa renda, e cujos pais têm formação até a quarta série. Essas pessoas não têm uma bagagem cultural alentada. Por outro lado, são pessoas com grande potencial. Elas procuram ascensão social e econômica via carreira de professor. Se lhes fossem oferecido um curso decente, com instrumental para trabalhar tanto a cultura geral quanto a especializada, esse potencial seria aprimorado”, reforça.
Ainda na pesquisa para a Unesco, a pesquisadora conclui que o jovem não vê atrativo na profissão porque os planos de carreira não são estimuladores, só levam em conta o tempo de serviço, e a diferença salarial entre o início e o final da carreira é muito pequena.
* Fonte: GATTI, Bernardete Angelina. Políticas docentes no Brasil: um estado da arte. In GATTI, Bernardete Angelina; e BARRETTO, Elba Siqueira de Sá (orgs.) Professores do Brasil: impasses e desafios. Brasília: UNESCO, 2011.
Matéria extraída do NE 10
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