domingo, 11 de outubro de 2015

Aos 52 anos, estudante está prestes a realizar sonho de ser professora

Vanda Prudêncio teve que interromper estudos na infância, por dificuldades financeiras na família


Gosto pela leitura sempre foi característica de Vanda / Fernando da Hora/JC Imagem

Gosto pela leitura sempre foi característica de Vanda

Fernando da Hora/JC Imagem


O primeiro dia de Vanda Prudencio da Silva, 52 anos, na Escola Compositor Antonio Maria, em Rio Doce, Olinda, ficou marcado pela surpresa da aluna, nos instantes iniciais da aula. “Você vai precisar de muita determinação e coragem, porque é a única matriculada no primeiro ano do magistério nesta escola!”, declarou uma professora, assim que entrou em sala de aula. De pronto, Vanda respondeu que não desistiria. Estava disposta a realizar seu sonho, apesar do grande desafio que acabara de enxergar. Não valia a pena voltar atrás, sobretudo porque, até chegar ali, o caminho tinha sido longo. O sonho precisou ser adiado por muitos anos. E, desta vez, ela tinha certeza: havia chegado a hora. 

Foi durante as aulas na Escola Tomé Gibson, na Guabiraba, Zona Norte do Recife, entre as décadas de 60 e 70, que Vanda decidiu ser professora. “Sempre gostei muito de ler. E acho lindo uma criança sendo alfabetizada, descobrindo o mundo da leitura. Por isso, desde os primeiros anos de escola, decidi que queria trabalhar com aquilo”, conta. Pouco tempo depois, porém, os pais chegaram com a notícia: a menina e alguns dos irmãos teriam que abandonar os estudos. Vanda cursava a antiga 4ª série (hoje 5º ano do ensino fundamental) e teve que sair da escola porque os pais não tinham dinheiro para manter os oito filhos estudando. “Apesar de ser escola pública, cobravam dinheiro para merenda e até para o bolso que costuravam nas nossas camisas. O que meu pai ganhava como músico repentista e pedreiro não era suficiente para todas as despesas da família. Minha mãe não trabalhava porque tinha que cuidar da gente e da casa”, lembra. 

Mesmo sem poder continuar frequentando a escola, Vanda não perdeu o gosto pela leitura. Gibis, palavras cruzadas, dicionários sempre estiveram presentes no seu dia a dia. E, durante muito tempo, a menina foi a responsável por ensinar as tarefas de casa aos irmãos mais novos que continuavam estudando. Aos 18 anos, ganhou da vizinhança, na Guabiraba, um apelido que, talvez, conscientemente, não tivesse desejado, mas trouxe muita alegria. “Eu não vivia na porta de ninguém, gostava de ficar em casa, lendo, usava óculos e andava sempre com um livro debaixo do braço. Só me chamavam de ‘professora’”, orgulha-se. 

Com o tempo, vieram os filhos e Vanda manteve o costume de sempre estar por perto, incentivando a leitura, ensinando as tarefas da escola. Conta, com a maior alegria, que os dois foram aprovados na UFPE, aos 17 anos, na primeira vez em que fizeram vestibular. “Mas só Deus sabe o que a gente passou até comemorar essas conquistas. Foram muitas as dificuldades financeiras. A meus filhos, nunca faltou o que comer, graças a familiares e amigos a quem sempre recorri nos momentos de maiores dificuldades. Mas eu já passei fome, sim. E às vezes não tinha sequer o dinheiro da passagem dos meninos para a escola. Dia desses, conversando com a minha filha, ela me questionou: ‘mainha, como a gente conseguiu vencer tudo isso’? ‘Sei lá?!’, foi o que respondi”, recorda Vanda, que, ainda muito nova, teve que deixar a profissão (ela confeccionava móveis) para cuidar da casa e dos filhos. Durante muitos anos, a única renda da família foi a do ex-marido, que trabalhava como pedreiro. Quando o casal se separou, o filho mais velho, Ismael (hoje com 31 anos) estagiava e, com o salário de R$ 500 passou a sustentar a casa.

Diante das dificuldades financeiras Vanda enxergou no gosto pela leitura e pelos estudos uma forma de ganhar dinheiro. “Eu cuidava de algumas crianças do prédio enquanto as mães trabalhavam. Então vizinhos me sugeriram que eu ensinasse as tarefas de casa também. Isso nos ajudou muito a sair do sufoco num determinado período”, recorda. 

Em 2014, Vanda decidiu cursar uma turma do EJA (Educação para Jovens e Adultos). “Eu tinha medo, sobretudo porque não me dou muito bem em matemática. E sofri demais com as provas e trabalhos dessa disciplina. Também enfrentei muito preconceito. Críticas de alunos mais novos. Ouvi coisas do tipo: ‘o que essa velha faz aqui’? Mas venci”, ressalta, afirmando que o seu desempenho nas aulas ajudou a concluir o equivalente ao ensino fundamental na metade do tempo. “O curso deveria ser concluído em dois anos e Vanda terminou em um ano. Ela é muito disciplinada. Só falta aula se estiver doente. Chega sempre na hora certa, é participativa, entrega os trabalhos em dia e se dá bem nas avaliações”, elogia a professora Emanuelle Kathyane de Souza. 

O fato de estudar sozinha incomoda a aluna. Muito comunicativa, sente falta de ter com quem conversar e trocar experiências. Porém se preocupa, sobretudo, com a falta de interesse pelo magistério. “O professor é muito desvalorizado e isso faz com que as pessoas se afastem da profissão. É triste ver uma sala de magistério vazia. A sociedade deve abrir os olhos para esse problema, urgentemente. Médicos, engenheiros, escritores, astronautas, todos passaram, na vida, por um professor. Nossa profissão é indispensável. Mas parece que as pessoas se esquecem disso.”

Fonte: Jornal do Commercio

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